VIVENDO VÁRIAS VIDAS
Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga.Eu sou a beira do abismo, eu sou o tudo e o nada.(Raul Seixas e Paulo Coelho)
A maioria de nós vive uma vida única, ou uma vida dupla.
Quando se trabalha oito horas por dia na mesma coisa, e gastando ainda boa parte do tempo acordado indo para o trabalho, voltando do trabalho, descansando do trabalho, comendo nos intervalos... é fácil ter a sensação de que vivemos uma vida única. Independente de ser agradável ou não, a vida única tem o conforto de que as coisas fazem sentido, talvez não o sentido desejado, mas um sentido de qualquer maneira. Por isso muitas pessoas, e nós muitas vezes, não nos permitimos fazer uma mudança dessa vida única para um outro estilo de vida: porque a mudança implicará na perda momentânea de sentido. Nós queremos ter a segurança de que estamos indo para algum lugar, mesmo que esse lugar seja o inferno.
Tem gente que não está satisfeita com a vida única, não quer se dar ao trabalho de mudá-la, mas encontra uma saída: viver uma segunda vida, paralela à primeira. São pessoas que desenvolvem hobbies muito importantes em suas vidas: dormir, ver filmes, ler livros, viajar, colecionar objetos... Sempre que não estão trabalhando, elas se dedicam quase que exclusivamente a um desses hobbies, ou a uma combinação deles. Essas pessoas dizem para si mesmas que o hobby é a vida única real delas e que a vida única do trabalho é apenas uma maneira de sustentar economicamente seu hobby.
Algumas pessoas, entretanto, ou nós algumas vezes na vida, vivem não uma ou duas vidas mas várias e diferenciadas vidas ao mesmo tempo ou em seqüência rápida e contínua. Para alguns de meus leitores, essa afirmação soará natural: como tenho vivido dessa forma boa parte da minha vida, creio que tendo a atrair leitores assim. Para outros leitores, essa vida múltipla deve beirar o impensável, o inconcebíbel, o inimaginável. Serei bem didático então...
Uma vida múltipla começa pela ausência ou pela quantidade reduzida de horários fixos. Quem vive várias vidas não tem hora certa para acordar nem para dormir, tem poucos compromissos fixos e cumpre uma agenda que poderia muito bem ser de propriedade de um louco. É uma vida que não aconselho pra quem gosta de que as coisas façam sentido facilmente. Porque uma vida assim faz sentido, só que com alguma dificuldade.
É preciso uma visão de mundo para sustentar uma vida, seja ela única, dupla ou múltipla. As pessoas de vida única normalmente encontram sentido fácil numa ideologia de trabalho, carreira, construção de patrimônio e busca de sucesso e segurança material. As pessoas de vida dupla sustentam-se numa certa visão — mais flexível diga-se de passagem — de dualidade, de alternância, de onda no mar, de vaivém; se parassem para pensar em outra coisa que não seu hobby, tais pessoas pensariam em si mesmas como pêndulos ou como luas e suas fases bem definidas: crescente para cheia, minguante para nova.
As pessoas que vivem vidas múltiplas, ou que passam por fases de viver vidas múltiplas, têm que ser mais criativas para encontrar uma visão de mundo que dê sentido à aparente confusão com que a vida se apresenta nesses momentos. Alguns são partidários do niilismo, e vão levando a vida sempre na insustentabilidade das conclusões provisórias, outras pensam que devem aproveitar a vida a cada momento e sem tempo a perder. Tenho um pouco dessas duas visões, mas elas são principalmente destrutivas, negativas — sem nenhum sentido pejorativo — e quem quer viver várias vidas têm que ter também umas cartas positivas, construtivas na manga.
Aí é que entra a astrologia. Normalmente só sabemos nosso signo: Escorpião, Áries, Peixes... Nem desconfiamos que esse é apenas nosso signo solar, aquele em que o sol está, e que também temos nosso signo lunar, nosso signo marcial, nosso signo venusiano... As pessoas de vida única vivem pelo seu Sol (uma vida mais consciente), ou pela sua Lua (uma vida mais inconsciente). As pessoas de vida dupla normalmente alternam seu astro básico mais forte com o conjunto de seus outros astros mais fracos.
As pessoas de vida múltipla não gostam de estabelecer prioridades. Querem seu tempo de Sol e seu tempo de Lua, mas também seu tempo de Mercúrio e seu tempo de Júpiter, todos conscientemente vividos e expressos em atividades variadas durante o dia ou durante os dias. Como os planetas se movimentam em velocidades diferentes, e compõem ciclos temporais de diferentes extensões, cruzando-se sempre em novas configurações, é praticamente impossível fazer um calendário de vida que faça um sentido único. Mesmo porque talvez esse sentido não exista, e é necessário aproveitar a energia de cada momento de maneira particular e especial.
Se alguma coisa então, na vida de um múltiplo, se mantém mesmo no turbilhão dos diferentes ciclos, é porque há coisas que insistem em permanecer, em fazer sentido contínuo. Se isso se dá ainda por um resquício de acomodação ou por que essas coisas são partes constituintes da própria pessoa, é um mistério que as pessoas de vida múltipla, — como eu — ainda têm que decifrar.
Macapá, 05 de junho de 2007



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